É difícil admitir, mas nascer mulher foi conviver com a culpa. Desde cedo carreguei a sensação de já ter nascido culpada por erros imaginários e falhas que nunca cometi.
Culpada por me distrair e sentar com as pernas abertas, me apaixonar por dois meninos no mesmo ano, deixar escapulir um palavrão, dizer o que penso, usar maquiagem forte nos olhos, não me contentar com pouco, buscar a minha independência, ser firme nas minhas decisões, ter coxas grossas desde nova…
Todos os meus passos pareciam ser dados diante de um julgamento público no qual eu era a minha única testemunha, minha própria advogada de defesa e réu. Tudo ao mesmo tempo. Claro, em nenhuma das vezes o júri se absteve ou me absolveu.
O fato de ser filha de pais separados e ter sido criada pela minha mãe só agravou tudo isso. Eu tinha que conviver com a minha própria culpa e a culpa que poderiam dar a ela.
“Se eu repetir de série no colégio, a família vai cair em cima da minha mãe”, “agora que ela está namorando, preciso me comportar melhor, senão podem achar que ela me negligenciou”, “tenho que evitar todo e qualquer motivo para ninguém fazer fofoca com o nosso nome”. E assim a vida correu.
Almocei sanduíche nos intervalos do estágio para juntar meu próprio dinheiro. Saí tarde da faculdade e caminhei à noite na rua deserta durante 4 anos. Vi a grana do mercado ficar curta. Estudei incontáveis vezes até de madrugada para não perder a bolsa na faculdade. Ninguém comentou. Só virei assunto quando postei foto nas minhas redes sociais bebendo drink. “Que feio”, falaram.

Passei em um concurso universitário, consegui emprego na área que tanto queria, fiquei noiva, emendei a faculdade na pós-graduação que me custava quase todo salário, fiz diversos cursos, aguentei a pressão do fim de um noivado… Ninguém ligou. Só virei assunto quando comecei a namorar de novo, “rápido demais”, disseram.
Me mudei, montei uma casa com meu namorado sem pedir nada a ninguém, briguei com os sintomas de ansiedade, tomei coragem, larguei um emprego que não me fazia mais feliz, casei, viajei para Europa pela primeira vez… Mas só virei assunto quando fiz uma tatuagem. Culpa de quem?… Minha não é! Já bati o martelo.
Sei, de verdade, que as experiências que tive na vida são mamão com açúcar perto das infinitas histórias de outras mulheres mundo afora. Mas por essas que passei daqui e tantas outras que você passou daí: se desculpe por tudo.

Arranca qualquer peso que te colocaram. Deixe que os outros cuidem de suas próprias expectativas e siga o caminho que fizer mais sentido para você. Já passou da hora de aceitar que a vida pode ser mais leve e incrível. Desculpa por tudo. Desculpe a família, os amigos, os ex-amores, mas principalmente… se desculpe.
Me desculpar foi a coisa mais corajosa que já fiz por mim mesma.
E este é um convite para você fazer o mesmo, quantas vezes forem necessárias, até que já não haja mais prisão.